A RTP Memória transmitiu, no passado dia 5 de Agosto, o filme “Assalto Ao Santa Maria”.

Produzido em 2010, o filme surge descrito como “Aventura perigosa e visionária de um jovem emigrante que participa do assalto e ocupação do navio Santa Maria, como forma de protesto ao regime salazarista, e se apaixona por uma jovem portuguesa.”

Na realidade, é um cruzamento entre “Titanic” e “Capitães de Abril”, com a consultoria histórica de Camilo Mortágua. 

Camilo, hoje famoso pelas gémeas do Bloco de Esquerda, foi esse jovem emigrante na Venezuela. O assalto ao paquete foi o início de uma carreira de assaltos, questionados por serem talvez mais rentáveis do que revolucionários. Mas isso fica para outro filme… “Assalto ao Santa Maria” é apenas uma obra de propaganda. 

Os ingredientes e a receita seguida foram os que a preguiça criativa ditou: um par romântico, acontecimentos interpretados segundo uma versão oficial e personagens que não podem ficar sem a sua auréola de “piratas românticos”. 

Factos: no dia 22 de janeiro de 1961, o paquete “Santa Maria”, da Companhia Colonial de Navegação, foi tomado de assalto pelo Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL). 

O grupo, liderado por Henrique Galvão, resultou de uma fusão entre exilados portugueses e espanhóis (dirigidos por Jorge de Soutomayor, ex-combatente comunista).

O DRIL estava classificado pela CIA como organização terrorista, devido a vários atentados em Espanha.

Após o assalto em águas venezuelanas, pretendiam levar o navio até Luanda, para desencadear uma revolta contra Lisboa.

Depois de abaterem a tiro o oficial Nascimento Costa e de colocarem em risco a vida de quase um milhar de pessoas, acabaram por aportar em Recife, no Brasil, no dia 2 de Fevereiro.

Existe uma moralidade muito discutível em usar pessoas inocentes para atingir objectivos políticos. O filme não ousa colocar em causa essa moralidade. Henrique Galvão é o “humanista” de serviço, preocupado com a perda de vidas humanas. Fica do lado dos espanhóis a frase mais pragmática: “Quando nos metemos nisto, sabíamos que podiam haver mortos!”. Ou, como diria uma das personagens da série “24”: “Neste país não há inocentes!”.

Tudo é justificável, se for feito pelo lado certo da História. Afinal, a Liberdade é a causa que santifica qualquer combatente e legítima qualquer acção revolucionária! Como aquela acção que combatentes palestinianos levaram a cabo em 1985: sequestraram o “Achille Lauro”, outro paquete quase com mil pessoas a bordo e ameaçaram explodir o navio. O saldo foi igual: uma morte, a de Leon Klinghoffer, um judeu norte-americano. Era um deficiente que se locomovia numa cadeira de rodas. Foi morto a tiro e atirado ao mar.

Carlos Cunha, que interpreta Henrique Galvão, lê “D. Quixote”, para justificar o nome de código: “Operação Dulcineia”. A associação óbvia reforça a versão romântica e quixotesca do sequestro, aparentemente conduzido por gentis sonhadores (“freedom fighters”, como lhes chama um embasbacado passageiro norte-americano).

Dentro do navio também existiam passageiros e tripulantes. Outras vidas e outros pontos de vista ficaram por contar. Porque, tal como em “Titanic”, em vez de histórias verídicas, arranjaram um par “rapaz pobre sexy/ miúda rica jeitosa”. Neste caso, um pobre revolucionário, chamado Zé, e Ilda, a filha de um coronel do exército. O coronel é, claro, ríspido, prepotente e fiel ao Estado Novo. 

Spolier: o coronel mata a tiro o pretendente à mão da filha, deixando-a a gritar: “Zé! Zé!Zééééééééé!”

Outro spoiler: na cena incontornável, em vez de um carro com os vidros embaciados, por onde desliza uma mão feminina, a produção portuguesa optou pelo salão do navio, por um piano e por vinho venezuelano (toma lá, James Cameron! Aprende o que é ter classe!).

Último spoiler: o resto da acção e dos personagens são igualmente um amontoado de clichés.

“Assalto ao Santa Maria”, apesar de artisticamente inócuo, é um agente branqueador. Serve como lixívia para limpar consciências e para afastar qualquer nódoa que manche a versão oficial.

A ficção portuguesa e a História mereciam obras com outra ambição. Obras que não fossem subservientes.

Nuno Capucha – Representante do PPV nas listas do “Chega”, pelo distrito de Lisboa

14 de Agosto de 2019