A vontade de encerrar a Central de Sines por parte do actual governo já não é nova. Mas, desde essa altura que várias vozes se levantaram, incluindo a APREN (Associação Portuguesa de Energias Renováveis) dizendo que esta medida seria errada.

Surge, então, o devaneio de converter a Central de Sines numa central a hidrogénio, algo que não foi experimentado e é absolutamente incompreensível para o bom senso.

O jornalista José Gomes Ferreira chama atenção para a questão da Central de Sines: “Uma nova La Seda assoma no horizonte, desta vez disfarçada de fábrica de hidrogénio em Sines, para passar mais subsídios a favor dos lobies das fotovoltaicas.”

Neste artigo de opinião vou tentar de forma tão breve quanto possível explicar: 1) como a Central de Sines produz electricidade; 2) por que motivo é importante para Portugal; 3) por que a Central de Sines é um falso problema; 4) qual a solução do governo e outras soluções; 5) alguns dos possíveis interesses por trás do seu fecho.

  1.  A central de produção de electricidade de Sines é uma central termo-eléctrica e tem como princípio de funcionamento um ciclo de vapor, chamado ciclo de Rankine. De forma simples, nesta central o calor produzido pela queima de carvão é transferido para o vapor de água a alta pressão numa enorme caldeira. Este vapor vai fazer girar um sistema de turbinas (um conjunto de pás desenhadas para sofrerem rotação, mas não translação, ao contrário das dos aviões) cujo veio está ligado a um gerador que produz electricidade. A electricidade produzida passa a alta e/ou muito alta tensão num transformador e depois transportada e distribuída para os locais de consumo. Quando o vapor sai da turbina condensa em água líquida e tem de voltar a ser aquecido na caldeira. O facto interessante é que o vapor pode ser produzido por diferentes fontes, por exemplo, queima de biomassa, queima de gás, fuelóleo e inclusive pela energia solar de concentração, diferente do fotovoltaico.
  1.  Antes de mais, é importante dizer que a Central de Sines pertence ao grupo EDP, mais especificamente, à EDP produção. Esta é a segunda central da Europa com o melhor custo benefício, porque ao estar próximo do porto de Sines, o transporte do carvão é muito económico, ao que se juntam factores conjecturais, como baixos salários, etc. Esta Central tem uma potência instalada de 1200 MW (mega-watts eléctricos), divididos em quatro turbinas de 300 MW que não têm que funcionar todas ao mesmo tempo. Emprega, directa e indirectamente, cerca de 1000 trabalhadores e tem um tempo de vida que vai até 2030. Portanto, remodelá-la para aumentar o seu tempo de vida fica caríssimo (quase preferível construir uma nova), mas fechá-la 10 anos antes do tempo de vida, significa perder quase um quarto do seu investimento. Ou seja, é um negócio ruinoso em ambos os casos, negócio este que parece querer fazer o Governo. Esta central além de produzir electricidade barata, serve um propósito muito importante no chamado mix energético que no fundo se resume as diferentes fontes de produção da electricidade que consumimos em Portugal. Isto porque a produção desta central complementa a produção de electricidade pelas energias renováveis (por exemplo, num dia com muito consumo e sem vento e com as barragens com baixa cota) o que permite estabilizar a rede a eléctrica nacional. Caso esta central feche, o que vai acontecer é que teremos de importar electricidade de Espanha, muito provavelmente produzida por centrais como a Sines. Faz sentido isto?
  1.  O único motivo oficial para fechar ou converter a Central de Sines deve-se quase exclusivamente à imposição da União Europeia de que cada país tenha de cumprir com um Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, ou seja, que Portugal tem de reduzir as suas emissões de dióxido de carbono até atingir a neutralidade (a produção de dióxido de carbono tem de igualar a sua eliminação) até 2050. Ainda que a necessidade em si de reduzir as emissões de dióxido de carbono por causa do “aquecimento global antropogénico” seja algo cada vez mais discutido na academia à medida que, por um lado, se vão acumulando evidências sobre o efeito preponderante da actividade solar no clima terrestre e, por outro lado, se discute que provavelmente estamos sim a viver um período de carência de dióxido de carbono (por exemplo, a concentração média de dióxido de carbono são 300-400 ppm quando o ideal para o crescimento de vegetação são 1000-2000 ppm). É importante dizer que a Central de Sines conseguiu resolver a maioria dos problemas com emissões poluentes (nomeadamente, reduziu muitíssimo a emissão de óxidos de azoto, muito tóxicos), sendo o carbono o único que não consegue reduzir (apesar de o terem tentado). Portanto, se o Governo quer assim tanto cumprir com o Roteiro antes mencionado, é importante notar que este vai até 2050, ou seja, Governo pode perfeitamente deixar chegar ao fim de vida da Central, ou seja, 2030 e assim cumprir com os objectivos na mesma. Que motivos levam o Governo a querer “desesperadamente” destruir o que está a funcionar bem?
  1.  Depois de muitos devaneios sobre o que fazer com a segunda melhor central de produção de electricidade em termos de custo benefício da Europa, o Governo vem agora propor duas coisas: aproveitar os amplos terrenos em torno da central para instalar painéis fotovoltaicos para assim produzir hidrogénio e/ou talvez/eventualmente converter a central em si numa central a hidrogénio. Ou seja, em vez de queimar carvão para aquecer o vapor que actuará a turbina, usar o calor libertado pela reacção do hidrogénio com o oxigénio do ar para aquecer o vapor que actuará a turbina. Se a primeira utilização não faz sentido porque não há um mercado assim tão interessante para o hidrogénio que justifique o investimento, a segunda solução não tem sentido nenhum, primeiro não há qualquer experiência prévia nesta solução e segundo se vamos produzir hidrogénio com fotovoltaico para depois produzir electricidade, é preferível produzir logo electricidade com o fotovoltaico. De resto, se o Governo quer fazer experiências, por favor, financiem projectos na área da energia. Se estão assim tão preocupados com o dióxido de carbono que é libertado da central porque não hibridizar a central com solar térmico, porque não criar estufas onde o dióxido de carbono possa ser usado para produção de plantas? Por que motivo querem destruir o que está a funcionar bem?
  1.  Algumas das perguntas que surgem na cabeça dos que se preocupam com estes assuntos são as seguintes: Quanto receberá a EDP produção, propriedade dos chineses, de indemnização por reduzir em 10 anos o tempo de funcionamento? Será coincidência serem os chineses os líderes mundiais na produção de fotovoltaicos? Estará isto relacionado com a ligação por cabo eléctrico a Marrocos que o governo tem discutido? Haverá alguma relação com a vontade da China em criar uma rede eléctrica global? Este país tem feito enormes investimentos em energias renováveis e é público que tem uma relação “privilegiada” com o actual Governo. Terá isto alguma coisa que ver com o caso? Os Portugueses vão continuar a assistir à destruição dos bens do País sem fazer nada, como se não fosse com eles? Não deveríamos já ter alguma maturidade com a história de corrupção do nosso País? Não será que é tempo de deixarmos de pensar que os nossos governantes são boas pessoas interessados no melhor para o País?
Hugo Silva, Professor no Departamento de Física da Universidade de Évora