Em exclusivo para o Notícias Viriato, publicamos o capítulo “Castas Pseudodemocráticas” do Livro “Os Democratas Que Destruíram a Democracia” do Professor de Filosofia e Autor João Maurício Brás.

O Livro estará disponível a partir de Janeiro de 2020 nas grandes livrarias.

João Brás, doutorado em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e investigador no CLEPUL, da Universidade de Lisboa, já publicou cinco livros, dois deles sobre o trabalho de Onésimo Almeida e o seu último lançado em 2018 intitulado “O Mundo às Avessas – O Manicómio Contemporâneo”.

No dia 22 de Junho de 2019, entrevistámos o autor onde lhe questionámos sobre a “loucura” do mundo actual, falando do seu trabalho e obras, passando pelo sua visão acerca da modernidade e acabando nas questões dos progressismos e da Liberdade.


“Este capítulo é uma reflexão sobre a Idade Mérdia. E vai dedicado ao exemplos raros que praticam a liberdade de expressão e pensamento como é o caso do “Noticias Viriato”.”

CASTAS PSEUDODEMOCRÁTICAS

Michel Houellebecq, um dos grandes patologistas da nossa decadência, estabelece um diagnóstico exato sobre o nosso presente analisando as mutações do progressismo e o seu impacto nos média: «Nos últimos 20 anos […] surgiu um fenómeno surpreendente nos média, inclusive no diário de referência Le Monde, órgão central do “politicamente correto”, um “novo progressismo”. Até há uns 20 anos atrás, os proletários, os trabalhadores, os pobres, gozavam de respeitabilidade dos média, agora parte essencial do elitismo progressista. Eram vistos como interessantes e mereciam consideração graças à influência do partido comunista. Depois de 1968, aos poucos, houve uma diluição. O golpe fatal veio em 1974 com O Arquipélago Gulag, de Soljenitsin. Eis um livro que realmente mudou o mundo. Sobreveio uma verdadeira revolta das elites contra o povo. A palavra populismo passou a designar as inconfiáveis opiniões populares. Ganhou corpo a ideia de que o sufrágio universal poderia resultar em grandes aberrações e não ser panaceia. Em 2005, uma fronteira foi ultrapassada. O referendo sobre o tratado europeu de Lisboa recebeu um estrondoso “Não”. Mesmo assim, contrariando a maioria da população, o tratado foi adotado pelo parlamento numa negação frontal da democracia. A linguagem das elites para falar do povo tornou-se insultuosa. Adjetivos como “abjeto” e “nauseabundo” passaram a qualificar as ideias populistas e, principalmente, as ideias hostis ao “novo progressismo”. O povo cheiraria mal às elites. Impossível ser mais explícito.

Recentemente, os adjetivos usados para qualificar os favoráveis à saída da União Europeia no plebiscito da Grã-Bretanha foram extremamente violentos. Velhos, pobres, desinformados e estúpidos. Propôs-se refazer o plebiscito pois o povo teria votado mal. Foi o que aconteceu em 2005, na Irlanda, aquando da rejeição do tratado de Lisboa. O termo incompreensão é fraco demais para caracterizar a relação entre elite e povo. A palavra certa é ódio. O mesmo ódio que marca a minha relação com os média franceses. O chamado “debate público” não passa de uma caça às bruxas.»[1]

O ocidente afirma-se no século XXI como um bastião insuperável da civilização, proclamando um nível inédito de liberdade, justiça, preocupação com a diversidade, a tolerância, o ambiente, os animais, as minorias, etc.. Essa mundividência repleta de falsidades é encenada diária e ininterruptamente nos média. Estes foram outrora uma poderosa esperança da liberdade de expressão, da informação e da opinião, mas já não informam; servem, regra geral, a ideologia oficial, são apenas press release, veículos de propaganda dos guiões pré-confecionados da democracia totalitária e dos seus donos.

Os média atuais são uma mistura estranha de jornalistas sem qualidades, comentadores que servem interesses, políticos, alguma gente das artes e do espetáculo, estrelas mediáticas, gente famosa por ser famosa, ídolos de programas cretinos, etc.. Geralmente, falam em uníssono sobre o que deve gerar uniformidade e conformismo e demonizam tudo o que se opõe à ordem desejada. Não se pode perguntar nem contestar, criticar ou problematizar as pautas da concordância da doutrina oficial. Quem o fizer é fascista, ignorado ou “eliminado”. Quem obedecer ao pensamento único e o repetir é democrata, quem é contra é de extrema-direita.

Os velhos meios como os jornais e a televisão nacionais vão perdendo relevância, embora os média ainda tenham uma influência decisiva. Os jornais foram um dos pilares da civilização e de uma ideia genuína de progresso; de Kant e de Hegel até século XX, o jornal tinha um papel fundamental. Desde os anos oitenta do século passado, começou, porém, a perder influência e qualidade. A televisão e as redes sociais de propaganda oficial acompanharam e desenvolveram novas formas de mediocridade e empobrecimento intelectual.

Grandes escritores, políticos e pensadores escreviam nos jornais. Hoje os média são instrumentos políticos com os seus escribas medíocres, mas espertos. Entre os principais responsáveis pela destruição da democracia contam-se os média oficiais. Pouca imprensa hoje vale mais que um cêntimo.

As redes sociais, pela liberdade de debate e de conhecimento, são uma alternativa à pseudodemocracia institucional dos partidos políticos, dos organismos estatais e do sistema com a sua doutrina oficial. Essa alternativa de liberdade e conhecimento das redes sociais gerou uma onda de histeria política. Pensar diferente, ser crítico, ter liberdade de expressão surge associado a fake news, má informação, populismo, etc.. Um número cada vez maior de pessoas e meios não repete o “jornal oficial” do “partido”. Se a natureza das nossas democracias está em risco, é uma boa notícia, inclusive para a própria democracia. Um ministro português, Augusto Santos Silva[2] enunciava os perigos das redes sociais, principalmente pelo facto de os intelectuais serem substituídos por essas redes, o que constituía “um risco para natureza das nossas democracias”. Ora, já não há intelectuais e a nossa democracia não é grande coisa. As redes sociais disseminariam o populismo e as fake news perante a transparência e a verdade democrática, a dele. É curioso que os três traços da desinformação praticados, segundo o ministro, por essas redes, sejam precisamente a prática corrente da informação oficial: a indistinção entre informação e propaganda, a não separação de notícias e boatos e a indistinção entre factos e opiniões. A preocupação do ministro com o antielitismo também é notória, e justifica-se, pois as elites ocidentais falharam clamorosamente, são oportunistas, vulgares e egoístas. Não são democráticas nem pluralistas, defendem uma visão totalitária e diabolizadora de quem pensa diferente, embora defendam o seu autoritarismo como pluralista.

Na versão da democracia destas elites medíocres, mas poderosas, cada um de nós tem a obrigação de as escutar, admirar e seguir, pois são os intérpretes e críticos oficiais da pátria e do mundo. As redes sociais seriam assim novo diabo, não estariam dominadas por essa elite e a democracia estaria em perigo, pois permite que muitas pessoas se exprimam, sem condicionamento e triagem. Os comentários, livros e análises desses funcionários da versão oficial tornariam o mundo compreensível e nós passivamente receberíamos essas oferendas e ajoelharíamos perante o brilhantismo destas figuras triviais, empregados do poder político e económico-financeiro. O trabalho é o de normalizar os esquemas político-económicos com pretensões de predomínio global que nos impõem doses diárias de estupidez e ignorância, embrulhadas no rótulo de progresso, intimidando-nos e ameaçando-nos.

A nossa civilização está transformada numa encenação já sem qualquer vínculo com a realidade. Vivemos numa teoria. As pretensões culturalistas triunfaram, agora sim, tudo é construção, linguagem, narrativa, contexto e perspetiva. A realidade é agora uma ficção mediada. O que exigem de nós é aceitação passiva e uniformidade bovina. Uma nova autocracia demencial cresce diariamente. A política não passa já de uma encenação de um conjunto de famílias políticas e ideológicas acolitadas por seitas evangélicas laicas, os ativismos e os fraturantes, que nos brindam com as doses profiláticas dos guiões pré-determinados da festa do progresso.

O setor cultural dessa elite não passa de uma pequena confraria semiletrada e filosoficamente ignorante, mas muito poderosa e pragmática. As oligarquias decidem, os políticos executam, as universidades de todos os departamentos de ciências sociais e humanas ensinam a ideologia, os média divulgam-na, o sistema judiciário pune quem não vive ou pensa de acordo com essa ideologia, é este o pesadelo. Se analisarmos o perfil das “figuras” políticas e mediáticas, percebemos a degradação da qualidade a que chegaram “os nossos melhores”.

A democracia está tomada por funcionários, entre os quais os jornalistas, dealers de interesses, tecnocratas, clãs, burocratas, caciques, que têm o poder como fim último e transformam qualquer medida ou reforma em procedimentos meramente instrumentais para a manutenção desse poder

O modelo político-económico vigente tem muito pouco de democrático e os porta-vozes das questões éticas, morais e comportamentais que suportam esse paradigma não passam de uma espécie de bastardos de Marx e Trotsky, criados em cativeiro, nas sociedades do bem-estar que os pais e avós construíram e que lhes permite viverem num mundo artificial, imaginando salvar a humanidade, obrigando-nos a partilhar todos os seus delírios. O cidadão comum está avisado, é ignorante quando não segue o diktat da elite, incluindo as suas piadas e gostos, não está preparado para a democracia quando não faz as escolhas exigidas pela sistema e só é democrata, informado e esclarecido quando se submete à doutrina dominante. São os difusores dessa doutrina também os grandes responsáveis por esta democracia esvaziada de democratas. O seu trabalho alimenta a multidão de consumistas histéricos, acomodados, que confundem slogans com pensamento. O cidadão ideal é o consumidor-espetador médio. Essa mediania normalizada é formatada em permanência através dos meios de comunicação com o seu exército de comentadores e tudólogos, não raras vezes composto por gente sem grandes conhecimentos, sem capacidade crítica, analítica ou mesmo formação nas áreas que aborda. São pessoas especializadas em dar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, repetem banalidades, tornam-se conhecidas e importantes simplesmente pelo critério de aparecer. Estas personagens são promovidas a figuras de proa da intelectualidade pós-moderna. Nela encontramos, como já vimos, nulidades, ex-políticos e políticos atuais, figuras mais ou menos circenses das letras, dos jornais, da televisão e de alguns surtos populares das redes sociais (qualquer escritor é jornalista e qualquer jornalista é escritor). Estas figuras medíocres atestam a morte definitiva do intelectual no século XXI.

O estado da arte em 2019 para os que persistem na senda da lucidez recomenda a utilização das mesmas estratégias da resistência às ditaduras do século XX, pois não há efetiva liberdade de pensamento ou de expressão. Predomina o silenciamento, a censura, a delação, a vigilância, a punição e as consequências severas, laborais e criminais para quem não recita o credo pseudodemocrata neoliberal progressista. Nos meios profissionais, no dia a dia, alguém que seja socialmente conhecido – até em profissões como o ensino, a justiça, a academia, a política – se não repetir os chavões, é descredibilizado e remetido para um limbo, onde será acusado de todas as malfeitorias e defeitos pessoas, morais e ideológicos.

De novo é necessário o regresso à clandestinidade, por enquanto simbólica, e o recurso à imaginação e à criatividade para demonstrar a monstruosidade desta mistificação totalitária.

A boa notícia é que as exigências brutais das sociedades ocidentais de vidas estupidificadas, a desregulação económica e axiológica das existências e a nossa vida de marionetas estão a provocar um descontentamento cada vez maior com as lideranças e as suas elites. A resistência é liquidada com assassinatos de carácter e processos de intenção, mas cresce. O caminho para novos fascismos e populismos está também aberto. Pensar é ser fascista, mas, como na história de Pedro e o Lobo, um dia pode ser mesmo verdade. Os novos fascistas, de certo modo, já chegaram; são os que apelidam os outros de fascistas, praticam uma sobranceria moral e intelectual sem qualquer fundamento consistente, julgam-se detentores do que é o pensamento e o comportamento correto e aceitável, são intolerantes para com toda a diferença, inquisitoriais e dementes na sua visão sobre o ideal de mundo correto. Estes novos fascistas, mas agora do bem, estão nos governos, consideram-se até liberais, sempre progressistas, modernos e até de esquerda (de uma esquerda descomunizada e libertária) e mesmo de direita, dessa estranha direita que mais não é que um adjetivo. Tudo é feito em nome do progresso, de uma estranha ideia de progresso.

A sua tática é sempre a mesma; se sentem alguma reação, invocam o bem, estão sempre do lado das minorias, dos violentados, dos oprimidos. E quem pode ser contra a mulher, a livre escolha e a favor do racismo, da violência e da discriminação? A sua retórica é cínica e falaciosa e nada tem que ver com o que dizem defender. Dividir para reinar, lançar grupos contra grupos, interesses particulares contra o bem comum é a prática usual para a sua manutenção no poder.

Alegar a superioridade civilizacional desta mundividência, que não admite contestação, assenta numa visão flutuante e relativista sobre a realidade e é invariavelmente superficial e facciosa. O mundo correto é fluído, sem raízes, um imenso mercado sem regras a não ser a lei dos mais astutos, dementes e trapaceiros. O poder dessa ideologia, que se quer de novo universalista e mundialista, escuda-se num mundo plano, sem passado, sem enraizamento. A sua vanguarda moral odeia a família e as relações duradouras e equilibradas porque só vivem experiências de desestruturação e são incapazes do que é verdadeiro e sólido, têm repugnância pela religião e pela fé, porque não admitem rivalidades. Detestam os costumes, as tradições e as hierarquias porque não pertencem a lado algum. O seu niilismo, o do século XXI, é um vazio preenchido com os frenesins emocionais passageiros, frémitos, indignações e afetos superficiais. Dão umas moedas para a fome em África, à mesa do restaurante indignam-se com a pobreza do mundo, lançam umas imprecações numa qualquer rede social, jornal ou televisão contra o que consideram antiquado e fascista. Como não pertencem a lugar algum, nem querem que alguém pertença a algo senão à submissão à sua doutrina, detestam o amor a um lugar, a uma pessoa, a crenças ou tradições que dão sentido à vida.

As novas castas já com décadas ostentam um desprezo arrogante por quem os confronta, apodando-os retrógrados. Essa é a sua vingança pelo vazio que têm no coração e a aridez mental e emocional das suas vidas. Como a sua vida é, regra geral, de uma enorme pobreza intelectual e emocional, pretendem destruir tudo o que é significativo. As suas ideias e crenças são epidérmicas; por isso, detestam o que provém da tradição, da profundidade, dos limites que nos permitem dizer que somos livres, ou das hierarquias que permitem distinguir o que é profundo e essencial do que é acessório e vago.

Os média em particular (praticamente todos, as exceções livres são severamente bloqueadas e demonizadas) e todos os domínios da cultura em geral são peças fundamentais deste mundo e das suas elites que nada têm de aristocrático ou da excelência intelectual ou guerreira das antigas elites. As do presente podem ser encontradas nas academias (em Portugal não, é o deserto), nos jornais, na televisão, em todo o espaço mediático. A sua atividade principal consiste em contribuírem para que sejamos cada vez mais anti-homens e antipessoas.

Há uma uniformidade estranha, mas sintomática nos principais médias ocidentais, que se assemelham a órgãos oficiais do partido do Estado como na antiga União Soviética. Tudo se faz para que não exista alternativa a essa bombardear permanente do que deve ser pensando e repetido. O divergente é fascista e as suas informações são eventualmente falsas. Exige-se que a informação e a opinião se encontrem do lado certo da história, mas o conceito de lado certo é fraudulento.

Há, contudo, curto-circuitos na ordem ideal, pois o cidadão comum começa a fazer escolhas políticas antagónicas às promovidas por essa ociosa e inútil corte mediática. O mundo não é o que é difundido, noticiado e explicado pela informação oficializada. O cidadão comum, apesar do relativo conforto, começa a apresentar sinais de saturação. Está esgotado e desiludido com a ficção em que se tornou a política ocidental e décadas de adestramento para a ignorância política e passividade. A eleição de Donald Trump nos EUA e a de Jair Bolsonaro no Brasil são paradigmáticas. A campanha maciça com todo o tipo de ataques e acusações, na maior parte sem qualquer consistência, constituem autênticos estudos de caso do comportamento da elite do século XXI, os seus média, académicos e políticos do sistema.

O alerta de Jacob Buckhardt, no século XIX, para o perigo dos “terríveis simplificadores”[3] infelizmente nunca foi escutado. Simplificar a história, reduzindo-a a um conflito maniqueísta, a diabolizações grosseiras e hediondas é estratégia constitutiva dos pesadelos totalitários.

Os simplificadores estão de regresso com um maniqueísmo básico e demonizador, produzindo uma massa de seres humanos simplificados. O seu regresso é sempre o prenúncio de tempos de indigência. A humanidade está dividida em bons e maus, de um lado os evoluídos e civilizados, do outro os bárbaros, os possuidores de todas as fobias e patologias. Temos de reproduzir as verdades da nova ordem, como o aquecimento global, a sociedade patriarcal, a culpa do homem branco.

Saber quem são e como surgem os Trumps, os Salvinis, os Orbáns e os Bolsonaros é irrelevante, interessa é repetir que são fascistas e nazis, mesmo que tal reflita um insulto às verdadeiras vítimas dos sistemas fascistas e um ato de profunda ignorância mesmo quando intencional.

Não seria importante percebermos o que significam essas escolhas? E porque um apelo antissistema se torna preferível ao sistema? Mas essas questões são tabu, as respostas não interessam. A reação das populações que escolhem opções consideradas pelo sistema como antissistema e mesmo antidemocráticas, a surdez perante os sermões das elites são sintomas da decadência desta pseudodemocracia.

As análises dos intelectuais possíveis falham o alvo por incapacidade, interesse e cegueira intelectiva, detêm-se apenas nas consequências, nos efeitos, e mesmo estes são analisados de modo enviesado, apenas com lentes ideológicas. Indagar os fatores da degradação do nosso sistema político e o papel dos seus principais representantes, em que se inserem esses intelectuais, permitiria descobrir quão responsáveis são pela implosão que denunciam e atribuem a fatores externos. Quando o branco é preto e o preto é branco, um fascista pode ser democrata e um democrata fascista.

Lenine considerou o esquerdismo como doença infantil do comunismo; o novo progressismo é a doença infantil de uma certa esquerda e de um certo modo de ser liberal. Pensemos de novo nas últimas eleições norte-americanas para a presidência e congresso, nas presidenciais brasileiras, no referendo inglês do Brexit. Registar os comentários, as análises e as reações permite perceber esse infantilismo chocante.

O novo democrata não aceita a derrota quando perde, insulta e intimida o adversário. Independentemente de se gostar ou não de Donald Trump, um inventário do que lhe é atribuído faz de qualquer monstro um amador. Trump é um efeito desta democracia. E sejamos lúcidos, mesmo que o homem fosse aquilo de que o acusam, ainda assim era muito melhor que os que o acusam.

Os adultos estão infantilizados, e assim interessa, é mais fácil manipulá-los. A criança não aceita a derrota, quando ganha é justo, quando perde é batota. Ora, um adulto com um pensamento infantil sofre de debilidade mental. É essa a doença infantil. Só por curiosidade, nas eleições brasileiras, Jair Bolsonaro só não ganhou nos Estados onde o analfabetismo é dramático e a escolaridade muito baixa.

Parece que o mundo era até 2012 um local maravilhoso, próspero, democrático, culto e civilizado como nunca na história da humanidade. Por geração espontânea irrompeu um exército do mal para dominar o planeta. O mundo belo que os escritores cultos descreviam e os média exibiam e onde as pessoas viviam, festejando e fazendo compras e compras, está em perigo. O mundo idílico do bem do novo progresso, onde o sol não tem chuva e o frio não arrefece, um mundo sem poluição nem pessoas más está em marcha. Parece que a crise de 2007 e 2008, o expoente do neoliberalismo, não existiu ou foi apenas um pequeno sobressalto.

Os defensores do bem são, afinal, os que mais têm contribuído para a destruição do melhor da cultura ocidental e as gerações que se julgavam as mais escolarizadas e esclarecidas são as mais responsáveis, as que venderam a alma ao capitalismo amoral e a meia dúzia de ativismos grotescos.

Não sabemos se haverá pessoas e movimentos que construam a curto prazo uma resistência e uma alternativa corajosa face a esta farsa pseudodemocrática. Sabemos, sim, que todos os dias surgem novos fascistas. O governo italiano, caracterizado como fascista, recusa em 2019 alterar o seu orçamento porque não agradava à União Europeia. Um dia, alguém terá coragem de levar o braço de ferro até ao fim e começar a derrocada das falsificações democráticas.

[1] Michel Houellebecq. Conferência proferida nas Fronteiras do Pensamento, Porto Alegre, Brasil, 2016.

[2] DN/Lusa, 23 novembro 2017, “”Risco de os intelectuais serem substituídos pelas redes sociais ameaça as democracias.”

[3] Carta de Jacob Burckhardt de 24 de julho de 1889 ao seu amigo Friedrich von Preen.

Capítulo do livro “Os Democratas que destruíram a democracia”, Opera Omnia. João M. Brás Janeiro de 2020

16 de Dezembro de 2019