Um conceito hilariante que já se vulgariza é o de negacionismo climático e sabemos bem onde devem estar os negacionistas, num qualquer gulag culturalista, neste caso, a expiarem o seu fascismo climático e a ignorância do “bem”. Em breve teremos sentenças e campos de concentração geridos por jornalistas e activistas donos da verdade onde serão punidos os negacionistas e submetidos a dietas vegetarianas e a discursos de Al Gore e Greta Thunberg (GT).

As questões climáticas não são um problema maior comparativamente como as desigualdades económicas e sociais, a qualidade da educação, os valores principais da civilizações e da cultura Ocidental, a qualidade das nossas emoções e sentimentos e o tipo de relações, o que mais valorizamos e consideramos predominante na existência, as normas que regem as sociedades, etc.

O clima e o “verde” como são apresentados não passam de fenómenos de moda, negócios e objectos poderosos de manipulação dos nossos medos. Veja-se o que aconteceu com simples sementes como a chia que pouco valor comercial tinham e devido à procura suscitada, os preços dispararam e são associadas a benefícios superiores para a saúde ou a produção intensiva de novos produtos da moda como as sojas. Novos produtos, novos impostos, novas cargas fiscais, a máquina não pode parar. O gasóleo é prejudicial façamoss carros a baterias eléctricas, tornemos o mundo dependente de electrónica e baterias e mandemos os ferro velho para África.

GT é o rosto actual desse entorpecimento que nos inocula no cérebro. Como o cão do Pavlov, ao tocarem a sineta com um determinado tema, “aumento das temperaturas”, “mês mais quente dos últimos 40 anos”, “plástico nos oceanos”, começamos a salivar abundantemente e a repetir os chavões injetados nas nossas mentes.

É uma evidência que a doutrina científica sobre o tipo e gravidade dos problemas ambientais, as suas causas e consequências não é unanime, ideologia e ciência confundem-se deliberadamente, a independência do cientista é um clássico da história da ciência. Não há um consenso na comunidade científica, mas para os tudólogos dos média oficiais ou para o cidadão que não tem hipótese de escolha uma tese é um dogma e um artigo de fé inquestionado. Em cada idiota há um especialista no aquecimento global.

Temos que recuperar a capacidade de pensar o óbvio, de começar por uma base sólida. O número de habitantes e o modo de vida do presente têm consequências no ambiente, no planeta e do clima. Não podemos ser mais de 7 biliões sobre o planeta com o tipo de vida que temos e não haver alterações de todo o tipo. O tipo de produtos e consumo, a ideia de mercado global, o impacto sobre os recursos naturais, as alterações artificiais da natureza, o mundo onde cada vez mais predomina inevitavelmente o anti-natural, abrem portas e consequências que desconhecemos, mas sem a manipulação genética dos alimentos e as alterações dos ritmos naturais da produção não conseguíramos sustentar o nosso tipo de vida. A nossa espécie tal como vive é anti-ambiente e anti-clima. As alterações climáticas são apenas um aspecto, mesmo no plano dos riscos, considerando outras ameaças bem maiores como o nosso modo de vida progressista e liberal e as respectivas alterações mentais, psicológicas e comportamentais. O humano atual é cada vez mais um vírus poderoso da sanidade mental e necessariamente do seu habitat.

A partir do momento em que nos consideramos deuses, em que julgamos que tudo é possível, seja no plano da natureza, como da cultura e dos valores, que se destroem hierarquias, o saber acumulado em milhares de anos, o saber da tradição, do costume e do hábito, e que tudo julgamos poder fazer, perdeu-se a noção dos limites e a importância destes.

Viver totalmente dependentes da tecnológica e sem colocar qualquer limite tem um preço (é inevitável este percurso, quando descobrimos que podemos fazer algo, mesmo quando não o devamos, acabamos por o fazer).

Ao prolongarmos a nossa duração e ao “melhorarmos” as nossas condições de vida e nos multiplicarmos, a capacidade do planeta altera-se inevitavelmente. O planeta não sobreviverá naturalmente ao excesso de população humana e à nossa vida artificial, seja a comer carne ou apenas vegetaise a fazer yoga. Abolida a escassez, a fome e a doença a nossa espécie extingui-se porque perdemos qualquer noção da realidade. Podemos produzir alimentos sintéticos amigos do ambiente, podemos reproduzir-nos fora do útero, abolir a diferenciação sexual, alterar a nossa psique e biologia, negar a natureza e e a história, mas ai já não seremos seres humanos, mas uma outra coisa qualquer.

A tecnologia que utilizamos e como a utilizamos, a ideologia que não podemos questionar são as principais responsáveis por o nosso presente, as alternativas foram transformadas em inimigos tenebrosos, mas imaginários. O paradigma liberal, (ultraliberal ou neoliberal) é incompatível com autênticas preocupações climáticas, espirituais, religiosas, existenciais, etc. Como esse paradigma é intocável temos as agendas progressistas do bem para nos entreterem com tácticas falaciosas e propagandísticas que numa sociedade lucida e de médias acutilantes seriam imediatamente expostas. O mundo é um centro comercial, interessa o espetáculo e a rentabilidade das vendas e das compras.

Como se tornou indistinto a verdade e a ficção, e a manipulação é permanente encontramos manifestações activistas, movimentos e organizações de dias disto e daquilo que fazem lembrar o regresso aos cultos mágicos e míticos em que adorávamos bichos, pedras e arvores. Muitas manifestações ambientais são modos de reviver antigas práticas esconjuratórias do mal e de aplacar o que nos ultrapassa.

Se alguém sabe algo sobre o clima e o ambiente são os que ainda vivem da e para a terra. Os modelos tradicionais de agricultura, o respeito pela terra e natureza foram totalmente destruídos e substituídos por produção intensiva e uns simulacros de respeito pelo ambiente com nomes pomposos como sustentabilidade, etc.. A destruição dos modelos ancestrais de conhecimento da natureza foram desprezados e a agricultura tradicional mesmo que modernizada, não falo de formas arcaicas, mas do significado do produtor local, da origem e qualidade dos produtos, da relação com o consumidor, do respeito pelos ciclos naturais, etc, foram totalmente destruídas. A política agrícola europeia (o mesmo sucedeu com as pescas) é um exemplo da destruição da verdadeira sustentabilidade e os ideólogos desta destruição nunca serão julgados e são também os que agora nos dizem como nos podemos salvar.

A máquina neoliberal progressista destruturou a cultura milenar que constitui a nossa civilização e também a ordem natural. Está destruído o equilíbrio entre o homem e a natureza, do próprio homem e do homem com os outros seres vivos. O descontrolo total exige manobras delirantes que nos impeçam de questionar e julgar os destruidores da nossa cultura, daí a importância da recuperação dos fins do mundo climáticos, que afinal ser homem e mulher são construções sociais, boas, quando emancipatórias, más quando opressivas, dos safaris morais pela história em busca de culpas ancestrais julgadas a partir do presente, etc.. A criação de uma clima de loucura permanente infantiliza-nos, torna-nos dependentes e desorientados, desse modo não se enfrentem os nossos problemas cruciais, ou seja, as nossas escolhas política e civilizacionais. O Ocidente está transformado numa agremiação de consumidores alucinados.

A hiperbolização do consumo e a transformação deste como a alma das nossas sociedades, a obsolescência programada dos objetos, a atuação permanente sobre a psique humana e o desejo, mas na sua versão mais pobre, a satisfação imediata e compulsiva, a exterioridade permanente estão a conduizr-nos a um suicidio cultural e mental. Dominado o humano, encontrado o modo de tocar uma das suas notas essenciais, o desejo, é fácil ser donos das nossas consciências e da nossa vontades. O mundo é um supermercado e um centro comercial global.

Quando o consumo é o modo de vida principal qualquer greve, marcha, capa de revista, live aid é uma farsa. O saco plástico e a beata são apenas entretenimento. Não há governo Ocidental por mais progressista e liberal que não tenha os conceitos de produtividade e crescimento económico como meta principal. A produtividade é o coração da mundividência neoliberal progressista. De nada vale estar revestido dos conceitos de sustentável, amigo do ambiente, isto e aquilo. As especificidades de conceitos como o mercado global, a livre iniciativa, o mercado que se auto-regula, a ideia e liberdade individual vigente são incompatíveis com uma existência sã e sensata.

O nosso modo de vida só será alterado por uma catástrofe de dimensões colossais, seja um cometa, um acidente nuclear, uma convuldsão gigantesca do centro da terra ou o desenvolvimento tecnológico através da clonagem e da inteligência Artificial. De outro modo não há qualquer hipótese de mudança, apenas um avançar até a um ponto final. O progresso que era uma crença, é agora, no século XXI uma ditadura.

Em tempos de derradeiro desenraizamento cultural, axiológico e espiritual, (já sei, palavras sinistras, “desenraizamento”, “espiritual”, horrível) as doenças mentais aumentam, (desaparecerão quando for estabelecido que não existem porque são discriminatórias) a miséria emocional e relaciona aprofunda-se, a atomização do individuo é a nossa principal característica. Neste quadro torna-se compreensível a procura furiosa de pseudo “transcendências” e o ressurgir de um fundo milenarista, mistura estranha de cultos pré-cristãos, míticos e totémicos com seitas pré-apocalípticas. Estas amálgamas demenciais típicas de épocas de regressão mental e cultural invadem todos os dominós no século XXI, da alimentação, à identidade ao clima, à deificação da natureza como uma deusa do bem.

O sentido da vida para humanos embrutecidos pelo consumo gera prazeres passageiros e sofrimentos prolongados. O maniqueísmo indigente e híper eficaz do nosso tempo definiu de uma vez por todas quem são os bons e os maus, promete a iminência de terríveis cataclismos como castigos para os nossos “pecados”, pragas e devastações e a necessidade de redentores. O ambientalista do século XXI, como os restantes ativismos são imitações degradadas e degradantes das seitas que anunciavam os fins dos tempos e cumprem de facto o papel de grupos pré-apocalípticos deste tempo terminal.

A GT é uma espécie de líder de uma seita milenarista apocalíptica com bons patrocinadores. O escritor Artur Peres-Reverte fala-nos amiúde da geração mais ignorante de sempre. As pessoas estão cada vez mais solitárias, desorientadas, são cínicas, vingativas e infelizes. Os happenings como as festas do clima e a exorcização dos bifes de vaca são ideais para os processos psicológicos como a sublimação e a transferência.

As seitas dos géneros, os alter mundismos esquerdistas, etc. são o resultado da ressaca da morte de Deus. Como não conseguimos viver sem formas de espiritualidade e da transcendência, estas foram reformuladas e degradadas em surtos como as paranoias ecológicas. A ideia de uma renovada linguagem da fusão entre o homem, a natureza e o universo, os equilíbrios naturais, é a restauração dessa necessita espiritual do ser humano, mas agora confusa e degradada. Ora, numa época terminal como a nossa, a espiritualidade vive-se como uma espécie de zapping, sou ecologista, budista, hindu, vegan, progressista, etc.

Crenças apocalípticas, profecias e previsões sobre o fogo devastador que fustigará os incréus e salvará os puros fazem parte da história, dos conteúdos da nossa actividade conceptual e simbólica, seja pré-histórica ou pós-moderna. Estamos de novo a viver um período pré-científico e repleto de profecias e temores apocalípticos. Eis como a filosofia do progresso e o endeusamento do homem e da racionalidade conduziu a uma nova era irracional, com seitas fanáticas e clãs. A “festa do clima” mais não que a regressão às liturgias imbecilizantex dos cultos mágicos do nosso pensamento pré-lógico.

Actualmente não há politica e discursos sensatos sobre o ambiente e ecologia, mas apenas um discurso demencial típico de radicais extremistas sobre o ambiente, a alimentação, o clima, etc. E porquê? Os responsáveis que detém o poder para mudar algo, geraram esta atmosfera mental. O triunfo do neoliberalismo progressista utilizando os seus média e os activismos definem as regras do jogo. Ou se é a favor das teorias desses grupos activistas, que os partidos neoliberais (não há governos liberais) e progressistas promovem mas também adoptaram, ou se é a favor da destruição do planeta. O ambiente, a sua salvação, tornou-se um exclusivo de uma certa visão do mundo.

Explicava-me um bom amigo, Mário Freitas, que nas áreas do Ambiente e da Ecologia, sucedeu algo que em parte aconteceu com os valores e a ideia de cultura e com muitas áreas universitárias. As pessoas de direita e mesmo conservadores, retiraram-se a partir dos anos 80 para o mundo dos negócios, para uma determinada visão neoliberal do mundo. Seduzidas e reduzidas a um discurso económico e financeiro deixaram que as agendas radicais extremistas, assumissem como suas essas áreas.

Estas seitas laicas, organismos muito importantes na construção do show e da festa em que tem que viver o consumidor e espectador Ocidental existem em todas as épocas, mas apenas emergem em tempos de colapso civilizacional. Theodore Dalrymple, um pensador fundamental no nosso tempo e médico psiquiatra, que tem desconstruído a figura patética de GT, traça o retrato exato deste grupo: «Da mesma forma que os leninistas sabiam o que era bom para o proletariado, e dessa forma conferiam a si mesmos um papel gratificantemente providencial, também os ambientalistas sabem o que é bom para humanidade, e da mesma maneira designam a si mesmos um papel providencial….Para a alegria dos corações sedentos, será então possível promover manifestações e distúrbios para o bem da humanidade; e as questões a respeito do significado da vida estarão por ora respondidas»1.

Theodore Dalrymple designa GT como a Aytollah do Clima, a mensageira que nos vai salvar e lançar no inferno os pecadores. Foi nessa imagem que os adultos a transformaram. Vivemos numa sociedade em que o saber já não está na experiência, na maturidade e até na velhice, mas na criança que vem salvar a humanidade e indicar o caminho que os adultos já não conseguem perceber. Uma mistura da saga do Exterminador Implacável onde se aguarda o nascimento do salvador, a criança que vai salvar o mundo. Esta é uma sociedade intencionalmente idiotizada e povoada de adultos passivos, histriónicos e infantilizados (e porque se comportam como crianças, meio aparvalhados). O ascendente desta adolescente é mais um capitulo da crise de autoridade, moral e intelectual que o Ocidente atravessa.

1 – Theodore Dalrymple, “The New Vichy Syndrome: Why European Intellectuals Surrender to Barbarismo”, 2010. Outros textos fundamentais do autor, “The Ayatollah of Climate Change: Greta Thunberg”, New English Review, Setembro, 2019, “Youth Is Wasted on the Idealists” by Theodore Dalrymple May 04, 2019, Taki `s Magazine.

João M. Brás, Professor de Filosofia e Escritor

24 de Setembro de 2019

Parte 1 – https://www.noticiasviriato.pt/post/greta-thunberg-e-os-apanhados-do-clima-parte-1

Parte 2 – https://www.noticiasviriato.pt/post/greta-thunberg-e-os-apanhados-do-clima-parte-2