Sei, caro leitor, que é hora de sacudir a areia folgada e assumir as olheiras da rotina. Antes de guardar as lembranças na fenda do seu álbum íntimo e desfolhado, devo-lhe dizer, quer reconheça ou não a soberania da coroa portuguesa, que a mera toalha estendida e o mergulho em mares salgados, foi um hábito cultivado pelo malogrado Rei D. Carlos.
É importante notar um detalhe: antes da praia representar um oásis de repouso e divertimento popular, desempenhava funções medicinais, nomeadamente na cura de feridas, febre, ansiedade, histeria e melancolia. Foram as elites francesas e inglesas que principiaram o costume veraneio das praias, durante o século XVIII, moda que ganhou expressão em Portugal com El Rey D. Carlos.
É de conhecimento comum que o Diplomata se enamorava da branda monumentalidade marinha, tendo por Cascais real predilecção. Esse facto é de tal modo veraz que recebeu não só cognome alternativo de “O Oceanógrafo” como o tributo do Museu do Mar D. Carlos. Ali ajuntava estros de tela (ele que se dedicava à pintura) e banhava-se na solidão espiritual, já que as praias eram, à época, locais comummente desérticos. O curioso de tudo isto, é que El Rey, patriotismo em carne e modelo para os portugueses, atraiu consigo membros da aristocracia, burguesia e povo, que replicaram este costume de D. Carlos. É pois lidimo afirmar que a Família Real Portuguesa instituiu o hábito português de fazer férias à beira-mar, ainda que de forma involuntária.
A Praia da Ribeira (ou Praia do Rei) fora a escolhida para instalar a barraca de banho real, na qual, em contexto de presença do monarca, se hasteava a bandeira do reino. A moda da praia associada à casa real foi de tal modo vincada naquela época que muitas das praias nacionais foram batizadas com os nomes dos governantes. Por exemplo, quando El Rey D. Manuel II visitou, em 1909, uma praia de Foz Do Douro, deixou o seu nome vinculado à própria, tendência que se generalizou por Portugal. O “Ir a Banhos” da época foi substituído pelo “Ida à praia” de hoje. O legado, esse, mantém o mesmo nome.
Francisco Paixão