Viseu, minha cidade, tem ligação umbilical a D. Ramiro II, rei de Leão a partir de 931 e figura importante nas hostes da Cruz contra os exércitos do Quarto Crescente. Instalou em Viseu a sua corte no ano de 925, projectando declarar o território portucalense como um reino cristão independente, para além de outras evidências históricas que põem D. Ramiro II e Viseu no mesmo trilho passado. Este rei reveste-se da extraordinária importância de ter sido o primeiro monarca a declarar-se Rex Portucalensis, quando éramos uma criança condal desejosa de ser jovem reino, embora a dádiva fundadora estivesse fadada a D. Afonso Henriques, muitos anos depois. É ainda atribuída a D. Ramiro II, embora com incertezas históricas, a obra notável da Cava do Viriato, fortaleza viseense octogonal onde, segundo reza a imprecisão, sonhava erigir uma nova cidade fortificada.
Num plano mais amplo, coligou as forças bélicas de Navarra, Leão e Aragão ante as forças do Islão, vencendo a Batalha de Simancas, em 939, os exércitos do califa omíada Abderramão III, conquista que valeu a consolidação da fronteira a sul da linha do vale do Douro. Assinale-se uma outra vitória contra os muçulmanos no ano de 950, perto de Talavera de La Reina.
A simbologia da heráldica viseense (tal como a de Gaia) relaciona-se com a chamada Lenda de Gaia. O cavaleiro cristão, entre as estradas profundas a conquistar, conheceu Sara, irmã de Alboazar, rei mouro do Castelo de Gaia, com domínios que iam do Norte até Santarém, pela qual se apaixonou. O cristão deixou o encanto prevalecer sobre a guerra e pediu a Alboazar a mão de Sara para matrimónio. Os desígnios passionais de D. Ramiro morreram na intolerância moura, já que Sara estava prometida ao Rei de Marrocos. Tomado de fogueada paixão, raptou a exótica mulher que, depois de batizada, recebeu o nome de Artiga, ousadia que motivou resposta do irmão de Sara, aprisionando D. Aldroa, conserte de D. Ramiro II. O rei recrutou em Viseu alguns dos seus guerreiros mais bravios rumo a Gaia, juntamente com o filho D. Ordonho.
Alboazar caçava enquanto Ramiro, passando-se por pobre romeiro, ultrapassava as portões do castelo, onde D. Urraca permanecia encarcerada. Inclemente quanto à traição do marido, denunciou-o a Alboazar no seu regresso. D. Ramiro, preso e condenado à execução, fez um derradeiro pedido antes de encarar a morte: escutar o som da sua buzina, sinal previamente combinado com os soldados liderados por D. Ordonho. Após o sexto toque, o castelo foi cercado e incendiado pelos homens do rei cristão. Alboazar morreu ao fio da espada dos soldados. Também D.Aldroa pereceu, atirada ao mar com uma mó de pedra no pescoço. Afamou-se o local como Foz de Âncora.
Francisco Paixão