A cruz de Cristo abençoa as raízes portuguesas desde o urro inaugural da pátria. A nossa devoção de alvor templário, construída pelo génio de homens como São Bernardo de Claraval, D. Afonso Henriques, Gualdim Pais, D. Dinis ou Infante D. Henrique e pelo espírito colectivo de um povo que em pedra se declarou a capelas, igrejas, mosteiros e outras moradias da Providência. O manto de luz de Maria estende-se sobre o domínio das quinas muito antes das aparições de Fátima de 1917, como é facilmente evidenciado pela história que hoje partilhamos no Raízes de Cortiça.
Corria o século X, vésperas centenárias da fundação do país, quando uma imagem de Nossa Senhora fora guardada no interior de uma lapa beirã por parte de cristãos perseguidos pelo general mouro Al Mansor. Séculos idos, no ano de 1493, a pastora Joana, menina de 12 anos, na liberdade breve das suas ovelhas, encheu as níveas pupilas ao avistar o rosto misericordioso de Nossa Senhora. Prostrando-se, orou sobre o fio do tempo.
A imagem apresentava algum desgaste, com as vestes de Maria bordadas a bolor e sujidade, o que motivou a jovem a asseá-la e adorná-la com silvestres flores. O mistério santo manifesto naquele altar de pedra acompanhou o pensamento de Joana durante a noite, motivo suficiente para que, na tarde seguinte, levasse o achado dentro da cestinha onde habitualmente guardava o farnel preparado pela mãe. Por fruto da incompreensão, a mãe de Joana lançou a estatueta para o rugido da lareira, fazendo a menina gritar: “Minha Mãe! É Nossa Senhora da Lapa! Ai, o que fez?”. Ia-se a mudez nativa pelo fado divino. Joana estava curada, enquanto que o braço da sua mãe paralisara. A imagem, essa, sairá imune do fogo. O sussurro popular chegou aos ouvidos do pároco, que logo sugeriu colocar a imagem no digno altar da Igreja Matriz em detrimento da sua origem rochosa e erma, para onde regressou sem mãos humanas. O milagre percorreu montes, serras e praias, afamando-se não só na nossa pátria como nos vizinhos espanhóis e as peregrinações adensaram-se pela corrida dos séculos. A edificação do Santuário começou em 1576 pelo engenho de padres jesuítas do Colégio de Coimbra, ao qual viriam a acrescentar o Colégio da Lapa no ano de 1685. A Senhora da Lapa tornava-se num dos sacros-locais mais relevantes de toda a Península Ibérica, ladeada de Braga e de Santiago de Compostela. O mesmo Santuário em pedra acolhe uma estreita passagem que contém a seguinte lenda: só aquele que não cometeu pecados graves consegue a façanha de passar para o outro lado, uma lenda que só Deus pode validar como real.
Este povo beirão das proximidades de Sernancelhe celebra o nome milagroso de Nossa Senhora Lapa desde o longínquo século XV, nas festividades regadas pelo Rio Vouga nas romarias de Verão caminhadas nos dias 10 de Junho, 15 de Agosto e 8 Setembro. Foi este lugar, onde a pedra acaricia os passos e o espírito, onde o cinzento é deslumbrante e português, que a prosa de Aquilino Ribeiro achou a inspiração da beleza humilde. Haverá alguma mais bela?
Francisco Paixão