Em mais de cinquenta anos nos quais os impactos da radiação electromagnética das telecomunicações na saúde têm sido exaustivamente estudados foi possível constituir-se um conjunto de estudos científicos de referência que mostram efeitos prejudiciais associados com exposições elevadas.

Um dos mais significativos destes estudos é o que foi elaborado pelo “National Toxicology Program” do Departamento de Saúde dos Estados Unidos da América. Este levou a cabo um projecto de 30 milhões de dólares designado por “Cell Phone Radio Frequency Radiation”, onde ratos foram expostos a radiação electromagnética das telecomunicações, similares às usadas nas segunda e terceira gerações, 2G e 3G. Os resultados do estudo foram anunciados em 2018 e dizem, entre outras coisas, o seguinte: “existem evidências claras de que ratazanas expostas a altos níveis de radiação de radiofrequência, como os usados nos telemóveis 2G e 3G, desenvolveram tumores cardíacos. Há também alguma evidência de tumores no cérebro e na glândula adrenal de ratazanas macho expostos. Para ratazanas fêmea e ratos macho e fêmea, a evidência foi equívoca quanto aos cancros observados estarem associados à exposição à radiação de radiofrequência.

Com base neste estudo o “Environmental Health Trust” esperava que a “Federal Communication Commission” também dos Estados Unidos da América revê-se os níveis de exposição considerados por eles como seguros (elevadíssimos por apenas considerarem os efeitos térmicos), coisa que não aconteceu. Curiosamente, a generalidade dos investigadores envolvidos no estudo mencionado passou a utilizar os telemóveis com maior precaução. Isto mostra a importância da informação, mesmo sem haver regulamentação apropriada.

De facto, o ser humano rege-se pelo instinto de sobrevivência e isso explica a recente oposição à instalação de uma antena de telecomunicações na proximidade da Escola D. Maria II em Famalicão. A dita antena foi instalada no terreno do lar S. João de Deus da Santa Casa da Misericórdia, sem que para tal a população, em particular a Escola, tenha sido consultada. Um dos professores presentes no protesto, Henrique Faria, disse o seguinte: “Segundo Organização Mundial de Saúde, a Direção Geral de Saúde e as normas da União Europeia estas antenas não devem ser nunca colocadas junto a escolas e creches, que é justamente onde está colocada, e a zona de maior radiação é entre os 50 e os 200 metros, que é onde está colocada a escola”. 

As antenas de telecomunicações constituem um dos principais elementos da infraestrutura de telecomunicações ao servirem de transmissor e receptor da radiação electromagnética utilizada pelos telemóveis. Tipicamente esta radiação é gerada pelo movimento acelerado de cargas eléctricas nas antenas emitindo em frequências entre os 700 MHz os 1800 MHz. Ainda que esta infraestrutura esteja avaliada, apenas em Portugal, em biliões de euros e que as telecomunicações constituam hoje a base do nosso de estilo de vida, este é o momento em que se deve seriamente reflectir sobre a instalação absolutamente indiscriminada destas antenas.

Vários têm sido os casos em que se associa a presença de antenas de telecomunicações com a incidência de tumores em crianças, como o caso da Weston Elementary School em Ripon nos Estados Unidos da América. De facto, a base de dados sobre incidência de cancros no Reino Unido mostra que, entre 2014 e 2016, na faixa etária entre 0 e 14 anos, o cancro no cérebro representa 26 % e 28 % dos casos de cancro para rapazes e raparigas, respetivamente. Se considerarmos que os crânios das crianças e adolescentes têm menor densidade e que, portanto, menos radiação é absorvida no crânio e a quantidade que penetra no cérebro aumenta, é fácil de perceber que as crianças, relativamente aos adultos, são muito mais vulneráveis no que se refere à exposição à radiação electromagnética. A esta vulnerabilidade se acrescenta que o seu organismo se encontra ainda em desenvolvimento, em particular, sistema imunitário, etc., e, portanto, estes constituem um grupo de elevado risco. Assim, a sua exposição a radiação electromagnética deve ser minimizada ao máximo. Por exemplo, foram noticiados casos de electro-hipersensibilidade em crianças, associado com o uso de redes sem-fios WiFi nas Escolas britânicas. De resto, em França o uso de smartphones, tablets e smartwatches foi proibido e restringido na população em geral a maiores de 15 anos.

A este propósito a Professora Auxiliar Martha R. Herbert na prestigiada Havard Medical School e pediatra no Massachusetts General Hospital nos Estados Unidos da América, dedicou a sua investigação ao estudo da ocorrência de autismo. No seu livro “The Autism Revolution”, copiosamente criticado pela comunidade médica, baseada em vários anos a tratar pacientes e a analisar dados científicos, conclui que o autismo não é comprometimento programado nos genes e não está destinado a permanecer assim para sempre. Em vez disso, a investigadora diz ser o resultado dum conjunto de eventos, muitos aparentemente menores e recomenda melhorar a nutrição, reduzir exposições tóxicas, limitar o stress e promover a aprendizagem e a criatividade. Em subsequentes declarações, esta autora afirma que existem trabalhos científicos que evidenciam uma possível relação à ocorrência de autismo e a exposição às radiações electromagnéticas das telecomunicações. Igualmente afirma, nestas declarações, que as redes sem-fios WiFi e as antenas de telecomunicações podem exercer um efeito desorganizador na capacidade de aprender e recordar, e que também podem ser desestabilizadoras para a função imunológica e metabólica das crianças. Factores que dificultam a aprendizagem.

Ainda que a maior parte da nossa exposição à radiação electromagnética esteja associada com a utilização dos telemóveis, o efeito da proximidade às antenas tem sido bastante estudado na literatura científica [1,2]. Um estudo particularmente bem planeado e executado, é o de Zothansiama e restantes co-autores [3]. Este estudo decorreu na cidade de Aizawl na India, onde foram selecionados 40 voluntários com diferentes hábitos de vida e idades, residindo em média a cerca de 40 m de alguma antena de telecomunicações, assim como, um grupo de controlo de outros 40 voluntários, com hábitos e idades muito próximas ao anterior, mas vivendo em média a cerca 400 m de qualquer antena de telecomunicações. Os voluntários foram também escolhidos por não estarem expostos a outras fontes de radiação electromagnética, por exemplo, fornos micro-ondas. Os voluntários de ambos os grupos preencheram um rigoroso questionário detalhando o seu estilo de vida (número de horas ao telemóvel, número de anos que vêm utilizando, tabagismo, etc.). Os níveis de radiação electromagnética foram medidos tanto nas casas dos voluntários que viviam na proximidade das antenas, com valores de exposição em média cerca de 5000 μW/m², como nos do grupo de controlo, registando em média cerca de 35 μW/m². Ou seja, os níveis de exposição para o grupo que residia próximo de alguma antena foi em média cerca de 140 vezes mais elevado que o de controlo. Durante o estudo foram recolhidas amostras de sangue e foram feitas medidas dos níveis de antioxidantes e qualidade do ADN nos linfócitos sanguíneos de ambos os grupos. Os autores mostram uma correlação estatisticamente significativa entre a diminuição de antioxidantes e aumento de lesões no ADN com a proximidade às antenas, sendo o grupo de maior risco aquele que vive entre 1 a 20 metros da antena. Os autores do estudo dizem que o “desequilíbrio entre as forças oxidativas e os sistemas de defesa antioxidante causam lesões oxidativas, que tem sido relacionado com várias doenças, como cancro, distúrbios neurológicos, aterosclerose, diabetes, cirrose hepática, asma, hipertensão e isquemia.” Os autores terminam o estudo dizendo: “A persistência de danos não reparados no ADN leva à instabilidade genómica, que pode levar a vários distúrbios de saúde, incluindo a indução de cancro.”

Para se enquadrar os valores de exposição mencionados no estudo e os níveis aos quais estamos expostos no nosso quotidiano, por exemplo, a 2 metros de um router de WiFi doméstico temos níveis de exposição de cerca de 960 μW/m², que na escala decibel representa −21 dBm e campo eléctrico 0.6 V/m. Este valor sobe para 3820 μW/m² ou −15 dBm e 1,2 V/m, se juntarmos o telefone fixo sem fios associado aos serviços normais de telecomunicações. Uma tabela de conversão entre as várias unidades pode ser consultada AQUI.

Com a atual geração de telecomunicações, 3G e 4G, a emissão da radiação electromagnética é aproximadamente isotrópica, quase como uma esfera, o que significa que a radiação a que estamos expostos diminui com o quadrado da distância. Portanto, estando na proximidade de uma antena de telecomunicações, designado por campo próximo, estamos expostos a radiações eletromagnéticas bem mais elevadas do que estando afastados delas. Por exemplo, próximo de antenas de telecomunicações registam-se potências de emissão de cerca de ~5000 μW/m² quadrado quando os níveis considerados seguros pelo “Building Biology Evaluation Guidelines” são 0,1 μW/m², ou seja, próximo das antenas registam-se valores cinquenta mil vezes acima do seguro. No entanto, o facto de não termos uma antena perto, não significa que não haja impacto para a saúde humana. Uma vez que, para aumentar a cobertura, a intensidade do sinal pode ser aumentada e mesmo sem a presença física da antena o risco continua presente. A questão é que na proximidade de uma antena a transmitir esse sinal, a potência seria ainda muito maior, possivelmente, centenas de milhares de vezes maior.

Por tudo isto, o princípio da precaução deve ser seguido como recomendado na Resolução 1815 de 27/05/2011 do Conselho da Europa.

[1] Levitt B.B., Lai H., (2010) Biological effects from exposure to electromagnetic radiation emitted by cell tower base stations and other antenna arrays, Environmental Reviews 18(1), 369-395, DOI: 10.1139/a10-903

[2] Bhatt et al., (2016) Measuring personal exposure from900 MHz mobile phone base stations in Australia and Belgium using a novel personal distributed exposimeter, Environment International 92:93, 388–397, DOI: 10.1016/j.envint.2016.03.032

[3] Zothansiama et al., (2017) Impact of radiofrequency radiation on DNA damage and antioxidants in peripheral blood lymphocytes of humans residing in the vicinity of mobile phone base stations, Electromagnetic Biology and Medicine, 36:3, 295-305, DOI: 10.1080/15368378.2017.1350584

Agradecimento: O autor agradece ao Movimento Português de Prevenção do Electrosmog pela contribuição com conteúdo e pela revisão do texto.

Autor: Hugo Manuel Gonçalves da Silva, Professor Auxiliar no Departamento de Física da Universidade de Évora. Doutorei-me em Física da Matéria Condensada (especialidade em electromagnetismo dos materiais) na Universidade do Porto e fiz o meu pós-doutoramento em fenómenos electromagnéticos terrestres (tendo sido investigador visitante na Universidade de Bristol) e trabalho agora na área da Energia Solar. Podem consultar o meu perfil scopus – https://www.scopus.com/authid/detail.uri?authorId=55986581800