Advertência em tempos de maniqueísmo do “bem”: provavelmente já é quase impossível pensar para além das simplificações e diabolizações bizarras.   

Pensar, ser crítico, analisar e problematizar é diferente de repetir slogans ou ter espírito de claque. É possível pensar sobre Trump de um modo minimamente rigoroso? Quase impossível. Chegaremos ao fim deste texto e nunca falaremos de política, porque ainda não é possível falar do que interessa. Trump é um campo minado, que obriga, enunciado o seu nome, a desculpas, justificações e advertências. Não será um Péricles ou um Licurgo, mas é a pessoa mais diabolizada da história da democracia, por um totalitarismo grotesco que usa o nome da democracia. Sobre o seu pensamento político, o que tem efetivamente feito no campo da política interna e externa, nos domínios económico, social, dos valores ,etc, muitos poucos saberão algo, além do que ouviram dizer e devem repetir. O pensamento hoje é, regra geral, publicitário.

Donald Trump foi eleito democraticamente na democracia mais democrática do mundo por 306 votos de delegados do colégio eleitoral contra 232 recebidos pela sua adversária Hillary Clinton. Na campanha eleitoral, antes da sua tomada de posse e durante o seu mandato, foi sujeito à maior campanha de demonização que há memória. 

Este homem foi e é submetido a uma campanha de ódio por parte dos média e plataformas subservientes do sistema que reproduzem as desqualificações mais ignominiosas da destruição Outro. Imaginemos alguém, por pior que seja, encontrar-se na seguinte situação: é acusado, julgado e condenado para que depois se leve a cabo uma investigação que tem a missão de descobrir quais os seus crimes, onde foram cometidos, quando, sobre o quê e quem. Analisar o “fenómeno Trump” não significa considerar que é o melhor presidente de sempre ou um ideal, aliás estamos perante um efeito e não uma causa, mas compreender a putrefação interna de um sistema que tem destruído o melhor da civilização Ocidental. 

Quem fizer um levantamento, mesmo aleatório, das reações antes e durante a campanha para as eleições presidenciais norte-americanas de 2016, e basta centrar-se nos principais média, com toda a sua corte de especialistas e nas declarações de políticos do sistema, perceberá que há uma estratégia para destruir tudo o que não está previsto no guião estabelecido do que deve ser a realidade. Uma das figuras do partido democrata norte-americano, na noite eleitoral, afirmava em histeria que o homem teria que cair fosse por meios democráticos ou não, legais ou ilegais, éticos ou antiéticos. Trump significa um imprevisto intolerável na liberdade de escolha só com uma opção a que chamamos agora democracia. O impeachement foi agitado logo no dia dos resultados eleitorais, “ele não vai acabar o mandato”, gritavam os histéricos. 

Os meses e dias antes das eleições foram uma avalanche de desdém, amesquinhamento e desqualificações. O idiota, o burro, o imbecil, alguém que não teria hipótese nenhuma, as piadas humilhantes, a sua redução a um menos que zero encheram os média e as redes sociais durante meses. Eleita, na democracia mais evoluída do mundo, a besta apocalíptica do zénite civilizacional, a anedota, o que não tinha hipótese, gerou um colapso num sistema degradado e degradante. E começou então um dos trabalhos mais pérfidos de um sistema ideológico que é uma máquina totalitária de pensamento único e de produção de consenso de uma multidão imbecilizada no seu conforto superficial. Depressa se agitaram os seus serviçais dos média. Trump será doravante o portador de todos os males, émulo da junção dos piores ditadores da história. Trump o porco, o asno, aquele onde se urina na cara, a bosta, a aberração, o ogre, deve sucumbir. Os que nele votaram estão errados e são ignorantes.

A noite das eleições foi dos mais fantásticos espetáculos mediáticos do Ocidente contemporâneo, assistimos ao desenrolar de etapas paradigmáticas de choque, negação e histeria, por parte de uma claque de bem pensantes, de um certo tipo de média, da academia, de uma certa política. Convém não perdermos o foco, em 2016 o Ocidente e o mundo eram o paraíso na terra? Pensemos nos vários domínios: sociais, económicos, no ambiente, no nosso modo de vida, na nossa saúde mental, no plano político.

A sobranceria moral, a suposta superioridade ideológica, o desprezo pelo outro quando não partilha uma determinada visão do mundo e mesmo o plano para a sua aniquilação simbólica e até material, está patente nesse inferno dos salvadores, os detentores do que é o voto certo, o candidato e os partidos e as ideias admissíveis e que têm que ser escolhidas. Nesta estranha forma de democracia, há a opção de escolher apenas um caminho, o indicado, o do bem. Escolher outros caminhos é não ser democrata. “Se votas em mim é democracia, no outro é antidemocracia”. “Eu é que sei o que é a democracia”. O infantilismo, o carácter simplificador dos detentores do “bem” e do “único caminho” deveria ser suficiente para começarmos a pensar de novo contra esse “fascismo do bem” que nos amordaça, infantiliza e manipula.

É espantoso como não nos questionamos sobre uma evidência, o país que na eleição anterior escolhera o messias na terra, Barack Obama, opta num passe de magia, pelo mais vil fascismo. Nem por uma única vez a ditadura progressista que impera no guião da “democracia liberal” considerou que quem não os segue acriticamente também é humano. Esses humanos estão saturados que lhes digam onde devem votar e que se esquecem deles nessa peça de teatro do absurdo em que se transformou o ocidente progressista. Nem por uma única vez se considera que o apodrecimento do funcionamento das instituições e do sistema política não é provocado por forças exteriores que querem destruir o “bem”, mas por aquilo que as suas elites, políticas, mediáticas, têm feito aos países, às comunidades e à vida das pessoas. 

Nesta distopia que vivemos, o enquadramento é claro, “ou te submetes e segues ou serás destruído”. Os sinais são rápidos e estão bem oleados, qualquer dissonância no sistema faz disparar a estratégia: “vem ai o fascismo e o nazismo”, “este é fascista”, “o que diz é falso”, etc. Executadas a manobras de proteção do sistema, o outro não terá qualquer hipótese, especialmente perante o aparelho mediático da produção da realidade e da verdade a consumir pelo individuo programado e embrutecido. Os antissistema são os novos pestíferos que os média aniquilarão. 

Nas peças inquisitoriais progressistas do século XXI, herdeiras dos seus avós Jacobinos e leninistas, Trump é e tem que ser a personificação do diabo com tudo o que de ilógico, infundado e irracional implica.

As suas falhas abrangem os mais diversos campos: morais e éticos, familiares, académicos, culturais, intelectuais, psicológicos, profissionais, etc. O ogre não tem uma única qualidade, só tem defeitos e os piores. Alguém consegue imaginar um ser vivo com mais, ou pelo menos, os mesmos defeitos que o presidente americano? 

A sua inaptidão é praticamente incomparável com qualquer outro ser humano. Nele encontramos a amálgama de todos os defeitos possíveis. Os diabolizadores exageraram. Vejamos uma lista sucinta do inepto eleito democraticamente no país mais atrasado do mundo, com a pior educação, ciência, sistema democrático, etc.

1- Muitos comentadores e doutorados das redes sociais referiam profusamente que o seu filho mais novo tem um ar estranho. (A cartada dos monstros geram monstros).

2- Surgiram vários relatos e testemunhos de comportamentos machistas e sexistas. O modo como inferiorizava e humilhava as mulheres, as mulheres que assediou e provavelmente violou. (cartada feminista).

3- A obrigatoriedade democrática de considerar Trump o inimigo público número um do bem e da democracia. Esta fatwa Ocidental foi decretada por uma espécie de sociedade do bem que junta imprensa, um tipo de intelectuais e uma certa mundividência politica e uma opinião pública para qual pensar é repetir uma série de slogans. Quem no “sistema” não chamar racista, sexista, homofóbico, ignorante, etc., a Trump, é considerado proscrito. Um crítico acérrimo de Trump, Dean Basquet e editor executivo do jornal NYT foi acusado disso por não utilizar esse tipo de adjetivação nas suas críticas. Qualquer intelectual ou figura da cultura que não denigra Trump deixa de fazer parte de quem é lícito admirar (A cartada da proscrição sem alternativa).

4- A ignorância e até instabilidade mental, e mesmo deficit intelectual e cognitivo são dos temas mais trabalhados pelos média para os fazer coincidir com o presidente. No inicio do seu mandato tentou-se demonstrar que a Casa Branca teria agora um ambiente interno que faria de qualquer hospício do século XIX um exemplo de racionalidade e saúde. Tudo começou com uma carta, sempre anónima, onde um funcionário diz que faz parte dos adultos na sala e da resistência. Nessa carta ao NYT a palavra “destituição” já é clara. Os exemplos citados quase diariamente sobre a sua falta de conhecimento e cultural geral colocam-nos ao nível dos indivíduos mais cretinos da história da humanidade e mesmo dos piores retardados mentais do planeta.

Este é um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, estudou em estabelecimentos de ensino conceituados e privou durante décadas com a elite económica, financeira, cultural e artística americana. Em 2016, a revista Forbes apresentava-o como a 324.ª pessoa mais rica do mundo e a 113.ª nos Estados Unidos, com um património líquido de 4,5 bilhões de dólares. Mas Trump afinal admirava um presidente americano que seria uma anormalidade, Andrew Jackson, ao contrário de Obama, que retirou a esfinge desse presidente das notas de 20 dólares. (a cartada do ignorante e do doente mental)

5- Os seus negócios, além dos fracassos económicos, revelariam todas as suas falhas de carácter. Enriqueceu às custas do pai. Levou à falência várias empresas, não seria assim tão rico, sendo rico fugiu aos impostos o que num país como os EUA tem um significado incompreensível para um português ou latino, etc. (A cartada da fuga aos impostos e das falências)

6- Não estaria preparado para gerir as suas empresas, falência, comportamento fraudulento perante o Estado e ainda o modo como mal tratava e explorava os seus trabalhadores. (A cartada laboral)

7- O antipatriotismo. A colaboração com o arqui-inimigo, o russo, o estrangeiro. (A cartada da traição à nação e da a quebra da lealdade para com as obrigações do cargo)

8- O seu estado de saúde seria deplorável. Por exemplo na pandemia do covid, a sua obesidade mordida, várias vezes enfatizada, tornava-o um doente de elevado risco que estava a tomar medicamentos errados. O tamanho da sua genitália também é tema de diabolização. (A cartada da deformidade física)

9- A sua relação com a mulher seria inexistente, pautada pela violência e pela traição. Trata-se de um péssimo marido e pai, apenas ligaria aos seus filhos e familiares para privilegiar familiares em negócios e cargos. (A carta do pior marido e pai) 

10- A incapacidade para ser verdadeiro. Diria dezenas de mentiras diárias e seria até o padroeiro das fake news. (A cartada do mentiroso patológico)

11- O militarista. O individuo que provocaria várias guerras mundiais, começando pela Coreia e Venezuela e levaria o Ocidente ao colapso económico. O seu antecessor Barack Obama declarou guerra a vários países, chegou a manter os EUA em guerra com sete países, tem recordes de dois mandatos em guerras sucessivas, ataques a civis, deportações, etc., mas é Trump a besta negra do mal. (A cartada do monstro que ameaça a paz mundial). Há também o Trump poluidor, o inimigo do clima, o racista, o anti-liberdade e anti-aborto, o anti-eutanásia, o anti-lgbt…etc.

Todo o mal que sucede nos EUA e mesmo no mundo, da economia, a problemas ambientais, axiológicos, diplomáticos, culturais, políticos, morais etc, terão origem ou forte contribuição de Trump. Para mentes infantilizadas as historietas devem ser contos infantilizadores, com bons e vilões.

Uma breve digressão sobre notícias dos média do sistema, cartoons, fotos escolhidas, etc., e destaca-se uma estratégia meticuloso de ódio brutal, repleta de meias verdades, falácias e mentiras concertadas. Qualquer foto ou desenho assemelha-se à mais diabolizada das iconografias do mal com a respetiva assimilação a caricaturas grotescas, demónios, sangue, fezes e urina. A cruzada contra Trump tem um fervor fundamentalista de um tempo sinistro, um tempo dominado pelos que descobriram a chave do progresso e da civilização irrecusável.

Com que interesses e poderes mexeu este homem? Trump é o bode expiatório dos pecados de um sistema aberrante que domina o Ocidente e transformou o nosso mundo num supermercado e num circo. Pensemos nisso.

João M. Brás
Professor e Escritor